quinta-feira, 26 de março de 2026

~ micro conto: have a nice life ~

 Em minha casa de infância me encontro, porém não me recordo. 


O que vim fazer aqui? Como cheguei até aqui? 


Com passos cautelosos eu sigo, agora, há poeira em meus pés, e baratas para me fazer companhia. 


As tábuas rangem, sinto uma presença fria. 


Na cozinha, um bolo de aniversário recheado de larvas. 


Abro a geladeira e acompanhado do cheiro putrido, ratos e restos de comida mofada. 


O lugar onde cresci, meu lar, agora uma casa abandonada. 


Ouço murmúrios vindos do banheiro, mas na porta não há maçaneta.


Um sentimento estranho me faz continuar explorando. 


Subo as escadas com cuidado, ainda assim, ferpas adentram meus pés descalços. 


Não sinto dor, mas sinto meus dedos se afundando na madeira podre ao chegar no corredor. 


Apenas dois quartos, o de meus pais, e o meu, trancado, com correntes e um enorme cadeado. 


Mas, espera, tem algo muito errado. 


Cobertos e imóveis, meus pais se deitam abraçados, algo parece pingar pelos lados e pelos pés da cama. 


O cheiro metálico, inconfundível, penetra meus sentidos, é sangue. 


Puxo as cobertas com apreensão, preciso vê-los. 


Com as entranhas já devoradas há muito tempo, encaro suas faces inchadas e apodrecidas por algum tempo. 


Talvez devesse chorar? Não, não consigo. 


Mas analisando todos os detalhes mórbidos, encontro uma chave dentro do que um dia foi minha mãe. 


Era a chave do meu quarto. 


E de repente, minhas mãos ficaram trêmulas, as pernas fracas, e um gosto amargo se apossa de minha garganta. 


Uso a chave no cadeado enferrujado. 


A princípio, é muito escuro para enxergar qualquer coisa.


Mas assim que meus olhos se adaptam à escuridão, eu vejo.


Eu lembro.


Uma dor sufocante me penetra. 


Minha garganta queima.


Eu lembro, eu vejo.


Vejo meu corpo sem vida.

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